Um teatro infernal - parte um : o êxtase
Fechada em seu quarto, luz acesa, ísis sentou-se em sua cama. Sentiu que alguma idéia surgiria, por isso abriu a bolsa, tirando de dentro dela alguns comprimidos e papelotes recém-adquiridos. Pegou um cigarro do maço que costumava fumar, acendendo-o na esperança de não pensar em nada, absolutamente. Bastava-lhe os sentimentos tormentosos como se um causaloso rio corresse, furioso após a tempestade, indo desaguar em algum lugar... que não fazia menor diferença. O que importava era a inundação, a destruição, o caos e a desordem deste rio em fúria, destruindo ao seu redor tudo que encontrava, em seu frenético percurso em direção a algum lugar, irrelevante naquele momento. O cigarro ajudava-lhe a não pensar em nada, a não lembrar de nada, nem de ninguém. Ísis acreditava que esse turbilhão de sentimentos grosseiros misturados lhe fizesse bem. Naquele momento sentia-se como a margem do rio, onde a fúria desgovernada das águas vinha destruindo tudo que encontrava, causando inundação. Não ocorrera-lhe, naquele momento, que a terra há de absorver as águas, após a tormenta, e que todo rio corre para a mansidão do oceano. A garota não queria pensar em nada, talvez por isso esta lógica correlação não estivesse visível.
Ao final do terceiro cigarro, lembranças truncadas de momentos da sua vida voltavam, como flashes. O torpor da maconha, a incosequência do adultério, o gosto de esperma, a criança maldita que gerava em seu ventre, acovardando-a. Por aguma razão que desconheca, não conseguiu fazer o aborto e isso consumia-lhe, dia após dia. Sentia-se covarde. Ao mesmo tempo, imagens de recentes rejeições substituiam as de gozo sob tetos espelhados ou luzes coloridas de boates. Era isso mesmo, pensou. Um pequenino ser, de alguns centímetros de comprimento, pouco mais de um quilograma de peso, fixado em seu interior, acovardando-a, privando-a de tudo aquilo que considerava prazeroso e seu. Não quis concluir o raciocínio. Abriu o papelote e espalhou sobre a cômoda o pouco de cocaína que conseguiu com algum conhecido. Tinha que ser o bastante.
Do lado de fora, D.Mirtes sentiu uma coisa ruim. Muito ruim. Por um instante sentiu-se aprisionada por este sentimento esquisito, de que talvez algo terrível estivesse às vias de acontecer. Foi como se a TV tivesse ficado muda, invisível, tudo paralizou naquele instante. Era apenas o sentimento de uma reação preparando-se para agir. Mover-se, fugir, sair dali, mas para onde? Não tinha uma direção, o sentimento refluiu, deixando D.Mirtes paralizada, por alguns segundos. Não podia ser coisa boa, seu coração lhe dizia. Alguns minutos mais tarde, totalmente tomada pela ansiedade, resolveu ir até o quarto da filha. A mesma música estava repetindo havia alguns minutos, coisa que ísis nunca fazia. Alguma coisa parecia muito errada. Bateu na porta: "filha? Ei minha filha!!". A ausência de uma resposta aumentou ainda mais seu estado nervoso, desesperando-a: "abre essa porta!! Abre!!". Sem resposta, forçou a entrada no quarto da filha, encontrando-a caída entre a cama e a cômoda, em convulsão, o nariz sangrando, olhos esbugalhados, tremendo. Ao seu redor, objetos espalhados pelo chão, trazidos ao solo na fúria de sua overdose. A mãe sentiu o corpo quente da filha em suas mãos, ainda estaria viva? "Tem que estar", pensou. Rapidamente pegou o telefone e chamou uma ambulância, que em poucos minutos já levava mãe e filha para o hospital mais próximo capaz de tratar daquele caso. Em seu pensamento, Dona Mirtes embalava a filha nos braços, como se fora ainda uma criança pequena, indefesa ante um mundo perigoso para alguém tão leve.
* * *
Ísis havia hesitado.
O que apenas ela e talvez este escritor saibam, até o presente momento, é que ísis hesitou. Por uma fração de segundo ela teve medo, como a antecipação de um remorso sem explicação. Mas a fumaça do cigarro lembrou-a de momentos que ela considerava felizes onde o mesmo desenho da fumaça havia coroado, como o desfecho grandioso de um gozo desesperado e inconsequente. Ísis tomou coragem e aspirou, de uma só vez, uma grande quantidade da droga, que em frações de segundos paralisou seu corpo, levando seu coração a uma velocidade impressionante, que ela jamais conhecera. Dois ou três minutos após, a euforia, o sentimento de que tudo era possível e de que ela era de fato, a mais corajosa e maravilhosa mulher sobre a Terra; e não seria uma causa irracional, incompreensível que a separaria de sua glória. A morte, que até então ela buscara, com medo e antecipação, freneticamente entre orgasmos e sensações as mais intensas e loucas, agora apresentava-se ante a garota. E ela, em seu delírio de grandeza, naquele que sem dúvida fora seu maior momento em toda vida, a convidou para entrar. Em sua loucura, aspirou, lambeu, quase comeu o pouco da droga que restava sobre o móvel; ainda não era o bastante. Ingeriu com um pouco de água de um vaso que havia em seu quarto - presente de D.Mirtes - diversos comprimidos que mantinha em seu poder, dos mais variados tipos, tamanhos, cores e efeitos... caindo ao chão e a ele arrastando aquilo que a conseguiu agarrar-se, em sua queda, no último ato desta peça infernal que era a sua vida. Não sentia mais seu corpo, apenas a euforia, que tomava proporções absurdas, tragando sua mente, suas lembranças, sua consciência. A euforia e ela confundiam-se, estava morrendo.
Ao sentir-se fora de seu corpo, no auge de seu frenesi, viu que numa das quinas de seu quarto estava um garotinho, extremamente meigo, de uns três anos de idade. Olhava-a com medo e tristeza, como alguém que queria sentir toda raiva do mundo dela, mas não tinha ainda conhecido este sentimento. Ou melhor, estava conhecendo, agora. Por alguma razão que a garota não soube explicar, ao ver aquela criança, assistindo apavorada ao teatro infernal que ali havia sido montado, sentiu como se a euforia tivesse subitamente acabado. Tentou, incontrolavelmente, abraçar a criança, que fugiu. Ela viu a criança ir embora, após em vão ter tentado segurá-la, através dos quatro cantos de seu quarto. A criança fugiu chorando, e quando ísis preparava-se para ir atrás dela, sentiu seu corpo subitamente pesar.
Era D.Mirtes que a estava chamando, levemente batendo em seu rosto, desejando com todas as suas forças que a filha acordasse. Através do telefone, ainda fora do gancho, já havia acionado a Emergência Médica, que já colocara-se a caminho. Ísis nunca havia sentido nada sequer parecido ao que vivenciou, naquele minuto. Um sentimento estranho, um carinho sem igual que ela nunca mnais esqueceu. Talvez fosse mesmo a hora de mudar.
