Este é o meu primeiro romance, espero que vocês gostem. Como está em blog, os textos mais recentes correspondem aos capítulos mais recentes, os primeiros capítulos sendo os posts datados mais antigamente. Obrigado pela visita!!

Quinta-feira, Agosto 07, 2008

Um teatro infernal - parte um : o êxtase

Fechada em seu quarto, luz acesa, ísis sentou-se em sua cama. Sentiu que alguma idéia surgiria, por isso abriu a bolsa, tirando de dentro dela alguns comprimidos e papelotes recém-adquiridos. Pegou um cigarro do maço que costumava fumar, acendendo-o na esperança de não pensar em nada, absolutamente. Bastava-lhe os sentimentos tormentosos como se um causaloso rio corresse, furioso após a tempestade, indo desaguar em algum lugar... que não fazia menor diferença. O que importava era a inundação, a destruição, o caos e a desordem deste rio em fúria, destruindo ao seu redor tudo que encontrava, em seu frenético percurso em direção a algum lugar, irrelevante naquele momento. O cigarro ajudava-lhe a não pensar em nada, a não lembrar de nada, nem de ninguém. Ísis acreditava que esse turbilhão de sentimentos grosseiros misturados lhe fizesse bem. Naquele momento sentia-se como a margem do rio, onde a fúria desgovernada das águas vinha destruindo tudo que encontrava, causando inundação. Não ocorrera-lhe, naquele momento, que a terra há de absorver as águas, após a tormenta, e que todo rio corre para a mansidão do oceano. A garota não queria pensar em nada, talvez por isso esta lógica correlação não estivesse visível.

Ao final do terceiro cigarro, lembranças truncadas de momentos da sua vida voltavam, como flashes. O torpor da maconha, a incosequência do adultério, o gosto de esperma, a criança maldita que gerava em seu ventre, acovardando-a. Por aguma razão que desconheca, não conseguiu fazer o aborto e isso consumia-lhe, dia após dia. Sentia-se covarde. Ao mesmo tempo, imagens de recentes rejeições substituiam as de gozo sob tetos espelhados ou luzes coloridas de boates. Era isso mesmo, pensou. Um pequenino ser, de alguns centímetros de comprimento, pouco mais de um quilograma de peso, fixado em seu interior, acovardando-a, privando-a de tudo aquilo que considerava prazeroso e seu. Não quis concluir o raciocínio. Abriu o papelote e espalhou sobre a cômoda o pouco de cocaína que conseguiu com algum conhecido. Tinha que ser o bastante.


Do lado de fora, D.Mirtes sentiu uma coisa ruim. Muito ruim. Por um instante sentiu-se aprisionada por este sentimento esquisito, de que talvez algo terrível estivesse às vias de acontecer. Foi como se a TV tivesse ficado muda, invisível, tudo paralizou naquele instante. Era apenas o sentimento de uma reação preparando-se para agir. Mover-se, fugir, sair dali, mas para onde? Não tinha uma direção, o sentimento refluiu, deixando D.Mirtes paralizada, por alguns segundos. Não podia ser coisa boa, seu coração lhe dizia. Alguns minutos mais tarde, totalmente tomada pela ansiedade, resolveu ir até o quarto da filha. A mesma música estava repetindo havia alguns minutos, coisa que ísis nunca fazia. Alguma coisa parecia muito errada. Bateu na porta: "filha? Ei minha filha!!". A ausência de uma resposta aumentou ainda mais seu estado nervoso, desesperando-a: "abre essa porta!! Abre!!". Sem resposta, forçou a entrada no quarto da filha, encontrando-a caída entre a cama e a cômoda, em convulsão, o nariz sangrando, olhos esbugalhados, tremendo. Ao seu redor, objetos espalhados pelo chão, trazidos ao solo na fúria de sua overdose. A mãe sentiu o corpo quente da filha em suas mãos, ainda estaria viva? "Tem que estar", pensou. Rapidamente pegou o telefone e chamou uma ambulância, que em poucos minutos já levava mãe e filha para o hospital mais próximo capaz de tratar daquele caso. Em seu pensamento, Dona Mirtes embalava a filha nos braços, como se fora ainda uma criança pequena, indefesa ante um mundo perigoso para alguém tão leve.

* * *

Ísis havia hesitado.

O que apenas ela e talvez este escritor saibam, até o presente momento, é que ísis hesitou. Por uma fração de segundo ela teve medo, como a antecipação de um remorso sem explicação. Mas a fumaça do cigarro lembrou-a de momentos que ela considerava felizes onde o mesmo desenho da fumaça havia coroado, como o desfecho grandioso de um gozo desesperado e inconsequente. Ísis tomou coragem e aspirou, de uma só vez, uma grande quantidade da droga, que em frações de segundos paralisou seu corpo, levando seu coração a uma velocidade impressionante, que ela jamais conhecera. Dois ou três minutos após, a euforia, o sentimento de que tudo era possível e de que ela era de fato, a mais corajosa e maravilhosa mulher sobre a Terra; e não seria uma causa irracional, incompreensível que a separaria de sua glória. A morte, que até então ela buscara, com medo e antecipação, freneticamente entre orgasmos e sensações as mais intensas e loucas, agora apresentava-se ante a garota. E ela, em seu delírio de grandeza, naquele que sem dúvida fora seu maior momento em toda vida, a convidou para entrar. Em sua loucura, aspirou, lambeu, quase comeu o pouco da droga que restava sobre o móvel; ainda não era o bastante. Ingeriu com um pouco de água de um vaso que havia em seu quarto - presente de D.Mirtes - diversos comprimidos que mantinha em seu poder, dos mais variados tipos, tamanhos, cores e efeitos... caindo ao chão e a ele arrastando aquilo que a conseguiu agarrar-se, em sua queda, no último ato desta peça infernal que era a sua vida. Não sentia mais seu corpo, apenas a euforia, que tomava proporções absurdas, tragando sua mente, suas lembranças, sua consciência. A euforia e ela confundiam-se, estava morrendo.

Ao sentir-se fora de seu corpo, no auge de seu frenesi, viu que numa das quinas de seu quarto estava um garotinho, extremamente meigo, de uns três anos de idade. Olhava-a com medo e tristeza, como alguém que queria sentir toda raiva do mundo dela, mas não tinha ainda conhecido este sentimento. Ou melhor, estava conhecendo, agora. Por alguma razão que a garota não soube explicar, ao ver aquela criança, assistindo apavorada ao teatro infernal que ali havia sido montado, sentiu como se a euforia tivesse subitamente acabado. Tentou, incontrolavelmente, abraçar a criança, que fugiu. Ela viu a criança ir embora, após em vão ter tentado segurá-la, através dos quatro cantos de seu quarto. A criança fugiu chorando, e quando ísis preparava-se para ir atrás dela, sentiu seu corpo subitamente pesar.

Era D.Mirtes que a estava chamando, levemente batendo em seu rosto, desejando com todas as suas forças que a filha acordasse. Através do telefone, ainda fora do gancho, já havia acionado a Emergência Médica, que já colocara-se a caminho. Ísis nunca havia sentido nada sequer parecido ao que vivenciou, naquele minuto. Um sentimento estranho, um carinho sem igual que ela nunca mnais esqueceu. Talvez fosse mesmo a hora de mudar.

Sábado, Maio 24, 2008

O dia mais feliz

À medida em que o casal ia andando, calmamente, suavemente pelas tranquilas ruas de Lugar Nenhum, pensamentos e sentimentos misturavam-se no interior de ambos, em especial para Karina. Nem ela sabia dizer ao certo desde quanto e por quanto tempo sonhara com a realização desta cena simples, mas que encerra em si tremendo simbolismo, para ambos. Os pés protegidos do chão por um simplório par de calçados de um tipo de couro sentiam o calor do sol da manhã. A rua, assim como todas as outras da magnífica cidade é de terra, mas uma terra tão carinhosamente trabalhada, que sente feliz em ser aplainada, compactada... em servir de palco pra tão adorável celebração de namoro. Mais uma vez sem saber Karina estava certa, aquele era o dia mais feliz da vida de ambos. Talvez os sábios de outrora e contemporâneos devam ter travado infindáveis discussões acerca da localização da beleza. Alguns diriam que a beleza encontra-se no final, na chegada, no objeto. Outros, talvez de uma linha lógica mais parecida com a minha diriam que a beleza pode sim estar na chegada, mas é muito mais característica do caminho; beleza é um sinônimo de caminhar em direção, ou a favor daquilo que se ama, no meu entender. Deste ponto de vista Karina e Daniel estavam vivendo o ápice da Felicidade, outro sinônimo da palavra Beleza.

Fátima parecia hipnotizada ao ver o casal se afastar lentamente, sem se preocupar com nada ao seu redor. O mundo era os dois, conforme havia sido tão repetidamente cantado em fade no refrão da primeira música que ele tinha feito para ela, muitos anos atrás. Ela ouviu a canção e entendeu o que devia fazer. Ele também. Ela se tornou o objeto e ele fez desse pequeno instante de vislumbre de um futuro agora mais presente do que qualquer outra coisa um caminho pra seguir, até ela. Depois desse lampejo de Felicidade, onde num flash ele viu uma pequena fração do que lhes aguardava, outro sentimento... e outro.. outro... alguns bons, outros nem tanto. uns maravilhosos, outros mais questionáveis. Tantos rostos, tantos números, tantos aplausos, tantos "motivos" pra ele ficar por lá, na Metrópole. Mas infelizmente, diria o rapaz, "motivo" é escrito com "m" e Amor, com "K". Seu destino já estava selado, portanto. Bastava aceitar, passo que normalmente sucede o acreditar. Carolzinha interrompeu o devaneio da mãe, dizendo que ela não precisa se preocupar, logo tudo ficará bem. Para todos. Fátima concordou, um pouco desajeitada, como alguém que fora pega sonhando acordada, tentando se recompor à medida em que respondia que sim, sem ter certeza do que acabara de dizer.

Karina andava instintivamente ao lado de seu tão sonhado namorado. Sentiu vontade de abraçar seu braço, ao invés de simplesmente andarem de mãos dadas, gesto que o garoto aprovou de imediato. Em seguida uma série de coisas tomou-lhe as vistas de assalto, o que não prejudicou em nada o seu andar (que a esta altura dos fatos era instintiva). Ao invés do magnífico sol, seus carinhosos raios, as delicadas montanhas sagradas ao seu redor, Daniel... seus olhos viam uma parte de uma trajetória no mínimo tão complicada quanto a de seu amado, até estarem os dois ali, andando de braços dados, à grande distância do mais puro dos olhares comuns... Era como se a garota tivesse voltado no tempo, até bem antes de estarem ali.

Lembrava um pouco da mãe, que havia falecido na cama de casal onde costumava dormir. E antes de partir, havia conversado com Rafael, irmão de Karina, por mais de uma hora. O rapaz saiu e pediu à irmã que entrasse, deixando do lado de fora do quarto familiares, amigos, um padre e um médico amigo da família. Todos em silêncio, resignados, sabiam muito bem o que iria acontecer. "Fecha a porta, por favor... quero conversar com você minha filha."

Como você está bonita, sabia? Uma vez eu já fui bonita assim, como você, mas sabia que não era minha vez de ser bela. Guardei o melhor de minha beleza e te dei, meu amor. Agora você tem o melhor de mim em você, é o meu presente pra você, Karina...

Os olhos da menina lacrimejavam, era como se palavras fossem saltar de seus lábios, mas a mãe, de imediato, prosseguiu.

Não diga nada, por favor. Está tudo bem assim. Conversei todo esse tempo a sós com o seu irmão porque não fui capaz de lhe dar a essência nobre que te dei, minha filha. E tudo isso porque uma vez eu vivi um grande amor. Mas ele não era pra mim. É pra você. Por isso fiz tanta questão de te dar o meu melhor, para que no dia que você encontrar seu grande amor, ele também queira depositar em você o melhor de si... e ele virá, pode ter certeza.

A tosse cortava as lágrimas da garota, que ia ligeiramente desesperando-se, em silêncio. a voz da mãe, cada vez mais fraca, seu olhar cada vez mais repleto de amor, ternura...

Veja, minha filha, eu sou feliz. Finalmente sou feliz. Irei agora descansar por toda a eternidade, não estarei aqui quando você o encontrar, quando seu coração parar de bater por um instante... e em seguida bater como se nunca tivesse batido antes... vai haver alguém com você, nesta hora tão especial. Ouça seu coração. É tudo que te peço...

A mulher, de nome Léa, ameaçou desmaiar, mas retornou à lucidez mórbida dos que estão a um passo do outro mundo.

Hehehe não irei encontrar meu grande amor, nunca tive realmente um. Meu caso de amor aconteceu muitos anos ants de você nascer, meu amor, quando por uma fração de segundo vi uma menina linda, chamada Karina, andando de braços dados com seu amado, um rapaz maravilhoso, pelas ruas serenas de um Lugar especial... muito Especial... quanta luz, meu Deus.. Luz...
Luz...
Luz.......

Karina sentiu o outro braço de Daniel lhe afagar os cabelos. Ela olhou feliz para o rapaz, que sorria para ela. Continuaram a caminhar. Desta vez estava cuidando das plantas, um pouco após o falecimento de sua mãe. O bonito jardim da casa que agora servia de abrigo à ela e ao irmão era rico em flores das mais variadas cores e tamanhos... eis que uma voz estridente, um pouco desafinada lhe fez o coração parar por um instante. Em seguida bater comos e nunca tivesse batido antes. Era Daniel, andando pela rua enquanto falava coisas que ela não se lembra mais, com dois amigos. Ele também não notara a garota ali, atrás de um portão de grades muito espaçadas. Sentiram o cheiro do outro sem perceberem. Ou melhor, talvez ela tenha percebido. E o que acotneceu em seguida? Ela se perguntava. Em sua mente, quatro paredes e um teto repletos de colagens de desenhos feitos à mão, por ela, a partir daquele dia.

Mal sabia que a cerca de quatro quarteirões dali, no quarto de Daniel, que agora aventurava-se no mundo da composição acompanhado de um violão que dificilmente afinava, letras de música, cifras e poemas por toda parte. O irmão dela de início já suspeitou tratar-se de algo assim, romântico, mas não comentou, preferindo concordar com a garota de que era apenas uma mera inspiração. Ele havia visto através da grade larga, sua irmã paralisada por causa de seu amigo, Daniel, enquanto embos passavam em frente à sua casa. Mal sabiam que aquele tinha sido o momento em que estiveram mais perto, fisicamente, desde aqueles longos anos, até recentemente. Karina nem atrevia mais perguntar-se o que custaria ter jogado água em seu irmão, aberto o portão para chamá-lo, ter arranjado algum pretexto comum para que os dois talvez trocassem uma palavra, ou duas, quem sabe. Bastaria. Preferiu deixar o jardim do jeito que estava, correr pra dentro de casa e desenhar à giz de cera, numa folha de caderno arrancada de forma aflita, a flor que regava no momento em que o rapaz passara, a poucos centímetros dela. Depois deste singelo primeiro desenho, muitos outros vieram. Casas, jardins, prédios, uma cidade inteira! Flores, muitas flores, nuvens, estrelas, cores, Amor. Daniel, naquele tempo não tinha a aparência de galã pós-moderno que lhe fez famoso, anos mais tarde. Era um adepto do hard rock, do heavy metal, secretamente jazindo em seu coração um inflamado senso de romance, que agora aflorava, de modo incontrolável. Sem que tivesse percebido, mudou seu vestuário, suas palavras, seus discos...

Era como se Karina estivesse de volta ao seu quarto, cujas paredes estavam totalmente forradas por seus desenhos e pinturas. Cada um era relativo a um dia que tinha visto Daniel, sem que ele o notasse. Ele sabia que estava sendo observado, por alguém que o amava. Sabia estar sendo vigiado por alguém que dele esperava o melhor. Assistindo um programa de astronomia, na TV a Cabo, enquanto tentava desvencilhar-se dos muitos sentimentos que valiam-se de seu corpo e mente para desenvolverem-se, ouviu algo sobre uma constelação chamada Carina. Pronto, era a palavra que lhe faltava, Karina. Karina Quer Casar, lógico! Assim surgira o nome de sua banda, agora um sucesso internacional... Ao olhar, em seu devaneio, para os muitos papéis colados nas paredes e teto de seu quarto, era como se revivesse cada cena que motivou cada um deles, cada sonho, cada sentimento, era tudo ao mesmo tempo, como se fosse possível percebê-los todos ao mesmo tempo. Em seguida lembrou-se de ver, de longe, uma banda de pop rock que levava seu nome se apresentar numa modesta casa de shows da cidade onde moravam, aliás uma grande cidade... da carona que Lúcio havia oferecido-lhe, antes dela ir ao camarim e poder, finalmente, dizer "oi" ao rapaz que tanto amava.

Em seguida a conversa que ouviu os dois terem, na sala de sua casa, no dia seguinte a esta apresentação. Estava seguindo seu coração, como sua mãe havia lhe recomendado, como último e mais precioso presente que podia oferecer... seguiu seu coração ao desenhar, ao observar sem ser vista, ao amar em silêncio, ao dar ouvidos a um sujeito estranho, que se dizia iluminador de uma grande banda de rock, chamado Lúcio, que ao lhe dar carona até em casa, sob a descrença da garota em si mesma de que deixara escapar sua grande oportunidade de conhecer Daniel... disse-lhe "você está apenas seguindo seu coração, Karina. Não se culpe por ser humana... e o que nos torna humanos, de fato, é o coração, concorda?" Os azuis olhos dele brilhavam, como se todo o universo estivesse ali contido. Antes de descerem da caminhonete, o pedido de Lucio para que ela não descesse de seu quarto até Ele vir buscá-la, independente do que viesse a acontecer. E a conversar com seu irmão naquela noite, dizer sobre sua partida para um Lugar muito especial, no dia seguinte; para ela não ter nenhum receio, pois ele iria entender. enquanto ela caminhava para dentro de casa, deixou-a com uma frase enigmática, seguida de um sorriso de inconfundível confiança.

"A beleza está no caminhar."

Karina despertou de seu transe. Era a voz de Daniel?

"Concorda?" - Daniel disse, sorrindo para a namorada, os olhos fixos nos dela.

Ela respondeu com um longo abraço, que parecia não ter fim...

Lúcio momentaneamente parou seu trabalho, como se prestasse atenção a algo que acabara de ouvir. Sorriu e disse para sua Esposa, Gabriela: "Sabe que estou com uma ótima intuição hoje? Acho que hoje será um grande dia..."

A mulher sorriu, em silêncio, concordando com o Esposo. afinal, da curtíssima distância em que estes dois corações encontram-se, como duas estrelas a orbitarem uma à outra, poderia ter sido Ela a proferir tal frase, mas como de costume, preferiu ouvir da Boca Dele, o que seu coração gritará à sua Mente, de forma muito muito difícil de expressar em palavras comuns. Deuses, Deuses...

Sábado, Abril 22, 2006

Mil vozes, uma decisão.

"Se não fosse por você, eu nunca seria tão especial pra mim mesma..."

Essas palavras continuavam a reverberar, ecoar, como se mil vozes a repetissem, todo o tempo, cada uma a seu tempo, impedindo que outros sons apoderassem-se da mente da frágil ísis.

A Grande Ísis encontrava-se ainda um pouco agitada, mas também frustrada, com a sua recente experiência com seu reflexo. Marco, ao seu lado, via tudo aquilo com uma naturalidade de difícil descrição, era como se a tranquilidade fosse ele, em pessoa. Ela não entendia por que razão ao dizer aquelas palavras, tinha sido jogada de novo tão longe do seu reflexo. Em seu esforço para entender o que lhe ocorrera, desenhava situações e possibilidades, estratégias, queria ter uma noção clara do que poderia ter ocorrido esse súbito desenlace. "Ela ainda não está completamente pronta para você", Marco lhe disse, causando um certo estranhamento na garota. Em sua concepção não lhe era possível seu reflexo não estar pronto para si mesma, isso soava ilógico. Seu amigo julgou ser este um propício momento para sentar com ela em uma das muitas pedras ao redor daquele enorme lago, sob os olhares paternos do Sol, afim de que ela fosse esclarecida acerca de várias coisas sobre si mesma.

Ainda atordoada com aquele sonho rápido, estranho, ísis voltava gradualmente ao seu - a bem dizer- perpétuo estado melancólico, mas uma meancolia que ao mesmo tempo em que lhe fazia sentir pesada, aquecia-lhe mais do que seu cobertor, que seu chuveiro, que aquele ser que tomava forma em seu ventre. Desejava nunca ter nascido e mais uma vez perguntava-se por que diabos estava ali, por qual razão tinha sido com ela tão cruel o destino, se tudo aquilo seria um tipo de castigo, algo ruim que ela não conseguia entender bem. Deitada em sua cama, abraçada ao seu travesseiro, queria chorar, mas não tinha coragem. Sentia-se sozinha.

Em seu interior, aquele pequenino ser humano também encontrava-se confuso. No útero materno, indefeso, sem poder reagir contra a mãe, sentia-se mal. Sentia seus sentimentos serem conformados à medida em que a mãe chorava, deprimia-se, expressava sua nostalgia... sentia que não era bem vindo e que seu amor seria em vão. Desistiu de amar antes que o amor se fizesse notar, achou que talvez fosse melhor não nascer.

É, seria melhor nunca ter nascido.

Nos dias seguintes, a melancolia apoderou-se de isis de uma forma perigosa. Mal comia, não ia às aulas, não queria saber de nada. A idéia de nunca ter nascido tornava-a mais pesada a cada minuto. Não queria mais viver. Em seu egoísmo, não considerava a falta que talvez viesse a fazer para as pessoas que conviviam com ela, isso não importava. Somente a dor de ser alguém que ela nem sabia dizer quem, ao certo, era importante, e mais nada. Não sentia-se grávida. Sentia como se este algo em seu interior fosse de propósito para ofendê-la, para machucá-la, um ente maligno que privou-a das noitadas, da turma, do sexo sem compromisso, do uso "inocente" de tantas substâncias, que uma vez na vida ou na morte não fazem mal, segundo ela, mesmo quando vive-se intensamente todos os dias, morrendo cada vez que o glamour da embriaguez narcótico, sob o ritmo frenético da pista de dança, ou do macho ante o gozo às custas de seu corpo acaba, ao entrar em sua casa, encontrando D.Mirtes sentada no sofa da sala, à meia luz, com um terço antigo em punhos, torcendo para que um santo qualquer traga sua filha para casa, sã e salva. Ela não reza mais para que algum santo, anjo ou ser que seja tire sua filha da promiscuidade que omite cada vez que diz estr curtindo o que a vida tem a oferecer, negando assim a morte que lhe apodrece por dentro. D.Mirtes, mesmo contra a sua vontade, habituara-se ao mundo da filha, por amor, para não perdê-la de vista, talvez. Condicionou-se a não negar a imagem de um ser que veio em uma hora tão delicada de sua vida, mas que com fé na existência Divina, ou quem sabe, "Destina", iria superar todas as dificuldades. Aprendeu a ver na filha não uma garota degenerada, depravada, perdida, mas como uma mulher que existe num mundo inacessível a D.Mirtes, mas que deve ser um mundo belo, sincero, um mundo de enorme paz e felicidade, que, mesmo sendo vedado à ela, não o deve ser, a outrem...

Desde que sua gravidez foi tornando-se evidente, as noitadas foram dando lugar a telefones ocupados, colegas sem tempo para atendê-la, homens inertes a seus truques de sedução. Não era a mesma de antes e isso a fazia sentir muito mal. Pensar em si mesma, em como ela é, de fato sempre despejava-a em depressões profundas, difíceis de solucionar... em vários dias, este foi o único em que resolveu sair de casa, sem explicar pra onde ia, nem por que. Horas mais tarde voltou silenciosa, apagada, parecia estar cinza, no horário da novela das oito. Nenhuma palavra foi trocada na sala da casa. Por um instante a TV parecia calar, restringindo-se apenas às suas emissões luminosas, como se a cena estivesse congelada no monitor.

Desta vez a filha não olhou para a mãe, "dona morte", como costumava chamá-la. Esse comportamento de ísis preocupava enormemente sua mãe, que não sabia o que fazer. Ísis entrou no quarto e tomou uma decisão.

Segunda-feira, Novembro 14, 2005

'E se não fosse por você, eu nunca seria tão especial pra mim mesma...'

-Vamos acordar?? -disse Fátima, sugerindo ao jovem casal deitado na grama que levantasse, já era manhã.

Nina deu mais um beijo em seu amado, dessa vez mais rápida e confiantemente. Apoiou as palmas das mãos em seu tórax e levantou-se, rápida. Ela gostava de sentir o corpo de seu amado com as mãos, lhe dava mais segurança de que ele é real. Daniel respirou fundo e levantou-se, um pouco mais vagarosamente que ela. Mal limpou a roupa, já teve sua mão presa pela de Nina, que a segurava com grande força, enquanto encostava seu corpo no dele. Fátima parecia aliviada com alguma coisa ao presenciar aquela cena. Aliviada e feliz, por alguma razão. Carolzinha enfim entregou ao casal a bonita flor, que parecia ter luz própria, embora muito delicada. Nina a aceitou e levou-a imediatamente à face, querendo aspirar seu perfume, juntamente com seu Daniel. Ambos aspiraram o tênue e profundo perfume da flor, simultaneamente, sob os olhares ligeiramente ansiosos de Fátima e sua pequena filha. Um minuto de silêncio. O casal sorria, parecia emanar um pouco da tênue luz da flor, agora.

O jovem-velho Mestre, por sua vez, continuava a sentir em suas mãos parte da umidade retida nas folhas das plantas ao redor de sua cabana. Um clima de esperança muito forte o cercava, como que se amparasse-o, protegendo-o do seu infeliz Destino.

-Massageando a árvore, Velho Mestre?

Era Lúcio, que despertou o rapaz de seu transe. O rapaz mal havia notado a aproximação dele! Seus pensamentos ainda oscilavam, variando entre a noite anterior e todas as outras noites e dias, de solidão. Pensava em todo o sacrifício que ele fazia, desde tanto tempo atrás, afim de manter a harmonia entre Lugar Nenhum e a face da Terra. Pensava na sua pequena filha, que não pôde crescer, por estar afastada de um pai isolado, vivendo solitário em meio às plantas e os gentis animais daquele bosque. Faltava pouco, ele sabia, para que sua vida voltasse ao normal, sem essa necessidade estranha de viver só, encontrando às pressas e raramente sua amada e nunca tendo a oportunidade de rever sua pequenina filha, que já deve acumular experiências enormes para alguém aparentemente tão jovem, apenas pequena por estar impedida de crescer. Afinal naquele diferente Lugar, os casais não se separavam por muitos metros... sendo o velho Mestre e sua esposa uma rara, aliás, única excessão.

-Nao, eu estava apenas...
-Pensando.-concluiu Lúcio.
-Isso...

O Mestre, sempre tão arisco, de tantos conhecimentos, parecia flutuar em seus próprios sentimentos, estava desligado da realidade, a bem dizer, como se o mundo em que vivesse fosse a maior das abstrações, imperceptível a seus olhos e sentidos, mais humanos do que podemos supor. Lúcio vinha tão cedo com boas novas:

-Mestre, você está a par do que houve ontem?
-Como assim?
-Sobre o Daniel e a Karina...
-Conte-me mais...
-Pois é, os dois estão juntos agora, como um casal.

Silêncio. A respiração do Mestre por um instante parou, seu corpo parecia petrificado.

-Sabe o que isso significa, Mestre?

O velho mago olhava Lúcio, espantado, ele sabia muito bem do que se tratava.


Não muito longe, nem perto dali, o jovem casal seguia de mãos dadas, de corpos dados, apesar de ainda imaculados. Nem lembravam-se desses detalhes que se por um lado eram enormes, aos olhos de estranhos, impedindo suas más intenções, por outro lado nem eram cogitados. Pouco importava o quão imaculados eram, pois isso apenas propiciou o encontro, o beijo, aquele teto estelar multicolorido, os dois corpos deitados na grama, que de tão macia lembrava um suave colchão; as palavras de amor, expressas em beijos, carinhos e saudades, que gradualmente iam despedindo-se dos dois. A saudade tinha vergonha de permanecer em companhia dos dois. As delicadas mãos dela sentiam falta do corpo forte, porém delicado dele, tão bem cuidado e ele sentia-se bem na presença dela, tendo essas intimidades com ela, por menores (ou maiores) que fossem. Coisas de casal, alguns mais céticos poderiam afirmar, mas a verdade tátil era que a existência deles ali, daquela maneira, estava mudando a harmonia do Lugar, tornando-o esperançoso. Soa irônico não haver esperança em um Lugar perfeito, mas é o que acontece quando a estabildiade supera as imperfeições e a única coisa realmente sabida é que nada de novo acontecerá, por mais maravilhosas que sejam as realizações locais, nada melhorará, nem piorará. E a presença de um casal de forasteiros ali mudava - e muito!- esse equilíbrio, talvez trazendo ao Lugar novas perspectivas, até então apenas teorizadas por uns poucos, mais dados e essa sorte de elucubrações.

A menina andava de mãos dadas com o então namorado, feliz. Em seu coração, ainda resquícios de palavras não ditas, verdades ainda não completamente pronunciadas, como ela achava que devia ser. E estava sendo, até agora.

* * *

Bem longe dali, na fria metrópole, uma depressiva e agressiva Ísis chegava em casa. Ela sempre chegava em casa como que se estivesse chateada com alguma coisa, com o mundo, talvez e desencantava-se de si mesma e de suas coisas a cada gesto observado, a cada palavra dita, a cada carinho negado a si mesma, em infindáveis agressões diminutas e ao mesmo tempo severas, como o ódio por se sentir assim... feliz. A felicidade a incomodava e ela não a queria por perto. Insistia consigo mesma que não devia conhecer tal sorte de coisa uma vez que todo sonho enfrenta o dia nascente, repleto de incertezas, imperfeições, coisas a melhorar; coisas que não fogem com uma distração qualquer, como o conteúdo dos sonhos, tao visível pela manhã, fugaz, a desaparecer instantes após o acordar,temperamentalmente fugindo, por nao termos lhe dado toda a atenção que queriam ter. Os sonhos, ao acordarmos, desdenham nós mesmos, os sonhadores e Ísis nada gosta disso. Prefere, portanto, não sonhar.

Mas a natureza humana encontra o sonho em todo momento em que a realidade pede por algo que ela não possa oferecer, naquele instante. A dura realidade precisa dos etéreos sonhos para que consiga saber para onde caminhar, quais formas tomar. É impossível a um ser humano não sonhar. Ísis odiava, por isso, ser humana. Ainda mais agora, gestante que era, carregando em seu ventre o filho de sua humanidade excessiva, da sua falta de auto controle intelectual, julgando que apenas seu emocional seria capaz de lhe guiar, que o controle da situação nunca sairia de suas mãos. De fato, nunca saiu, apenas a realidade tomou formas inesperadas por a sua mente não estar habituada a dialogar com seu impulsivo -agora depressivo- emocional que não foi capaz de prever o que uma ação impensada poderia ocasionar.

Ela entrou em casa furiosa e depressiva, como sempre, tirando do (bem) humilde lar o pouco brilho que lhe visitava, nas horas em que ela dali ausentava-se. Passou furiosa pela humilde sala, chateando os singelos raios de sol, que com a melhor das intenções tentavam aquecer aquele lar. Entrou em seu quarto e fechou a porta, deixando um silêncio mortal como seu rastro. Encostada no cômodo mais iluminado da casa, a cozinha, sua mãe, dona Mirtes, ficava triste, como que chorando sem derramar lágrimas, sem reação, ao ver a filha, tão bonita, tão nova, assim. Religiosa que era orava a tantos santos e deuses quantos fossem possíveis, afim de que ela conseguisse recuperar-se daquele mal que a acometia. Não conseguia ver naquelas ações, em seu silêncio de espectadora, ao mesmo tempo chocada e ferida com as cenas que presenciava, diariamente, sua filha. Onde estava a sua doçura? O brilho que ela trazia ao lar, com sua espontaneidade, alegria, esperança, sonhos. A menina que confundiu sonho e realidade não queria mais sonhar. E vingava-se de si mesma por não aceitar a realidade em que emergiu, ao abdicar de um mundo que a fascinava, coisa que ela negava veementemente, utilizando para isso a estranha justificativa de que a realidade era ruim demais, mesmo assim melhor que o sonho, pois todo sonho acaba, encontrando, inevitavelmente, a dura realidade do 'acordar'.

Diria o Sábio que a morte nada é além de um sonho e que passamos muito mais tempo mortos do que vivos, sobretudo se pensarmos que vivemos apenas uma vez, como tantos materialistas acreditam ser. Ísis ainda assim preferia a duradoura realidade, da qual podemos usufruir tão pouco e onde os nossos sonhos refletem-se tão fielmente, em cada uma de nossas ações... adormeceu. e em seu inevitável sonho, uma cena doce de um céu repleto de estrelas multicoloridas. Um rapaz bonito, que lhe despertou sentimentos, instintos, curiosidade aproximou-se dela, muito carinhosamente. Trazia consigo uma doce menina, loira como ela, idêntica, mas de feições mais meigas, sinceras, puras. "Se não fosse por você, eu nunca seria tão especial pra mim mesma."

Acordou assustada, não quis lembrar que tinha ouvido essa frase, mais uma vez por descuido em sua constante falta de auto controle. Não quer ser especial para ninguém. Queria esquecer a tal frase, mas por alguma mágica razão não conseguia.

"Se não fosse por você, eu nunca seria tão especial para mim mesma."

Ponto final.

Sábado, Novembro 12, 2005

Um Estranho Alguém

O estalo agudo de um copo incidindo no gargalo de uma garrafa de cerveja marcava o torpor de mais uma dessas reuniões informais de mesa de bar. Dado o tempo já dispendido ali pelos presentes, em meio a copos de cerveja e risadas acerca de temas os mais diversos, era de imaginar-se a natureza das discussões em curso. Discorriam sobre assuntos típicos da doutrina espírita, porém numa ótica alcoolizada, plena em ironias e questionamentos de um cunho mais insinuativo de uma gozação, ou paródia do que indicativo de alguma crença, por menor que fosse, naqueles ensinamentos. Porém o vapor do álcool é potente em mentes menos esclarecidas, despertando uma série de reações emotivas que por força do hábito forçavam os ironizadores a enxergarem, por alguns breves instantes, alguma Verdade tangível ao seu nível de consciência em tudo aquilo que parodiavam. Oscilavam entre a piada e a afirmação, sobretudo de que todos temos uma missão neste mundo. Começava o ápice do entorpecimento alcoólico, era o ponto de maior entusiasmo daquela discussão, enquanto falavam sobre missões imaginando suas mínimas responsabilidades e risíveis tarefas cotidianas a que somos todos impelidos a realizar, que alegorizavam sob a alcunha de “missões”. Um Estranho Alguém andava calmamente do outro lado da rua, incapaz de não perceber aquela discussão em andamento.

Perto dali, um grupo de jovens reunia-se ao redor de uma garrafa de vinho, e teorias as mais diversas acerca do universo, do humano... cada um havia aprendido algo acerca desses dois temas e de tantos outros em suas diferentes escolas: Rosa Cruz, Gnosis, Eubiose, Igrejas, Fraternidades Espíritas, Universidades, Vida. Pouco importava a origem de cada um, as discussões eram uníssonas, falavam o mesmo idioma e discutiam as mesmas coisas entre si. Exploravam amigavelmente os limites da Sabedoria que ainda lhes eram incógnitos, ou distantes. Mais um gole de vinho. Alegrias à parte, aquele grupo afinizava-se muito bem, contrariando a idéia de que pessoas vindas de movimentos tão diferentes poderiam entenderem-se tão bem. O Estranho Alguém avistou o grupo, sem ser notado. Muito interessava-lhe aquelas discussões, as quais Ele já vinha acompanhando há tempos, tomando conhecimento de cada dúvida, cada pergunta... e de certa forma colocando cada flor que o caminho daqueles privilegiados jovens lhes apontava. Ele parou em frente ao grupo, ao redor deles e ficou olhando-os, demonstrando enorme tranqüilidade e segurança. Os assuntos subitamente encerraram-se enquanto todos curiosamente e em silêncio ficaram olhando aquele homem adulto, de vestimentas simples e aparência convencional lhes admirando, ou esperando que o convidassem às suas discussões. Ele iria dizer alguma coisa? Sim... foi mais ou menos o seguinte...



Longe dali, na pacata e inatingível a olhares comuns Lugar Nenhum, um novo dia nascia. Sábado, dia de Saturno, Aquele que rege as realizações impossíveis, ou muito complicadas. Cronos, ou Saturno, o Deus do tempo em ambas as mitologias. Num jardim -agora- amplamente iluminado pelo intenso sol da manhã acordavam, ainda abraçados e deitados na grama Daniel e Nina. Ambos vestidos da forma como estavam quando do seu encontro, horas antes, ainda no mesmo lugar. Em meio a tantos beijos, carinhos, saudades, acabaram por deitarem-se ali juntos, para contemplarem as estrelas, que tanto gostam... e que tanto deles gostam, sem que eles saibam. Acabaram por adormecerem ali, ela deitada sobre o corpo de seu amado, que a abraçava muito carinhosamente. É interessante como os estrangeiros nunca perdem suas antigas manias: perigos não existem em Lugar Nenhum, mesmo assim Daniel protegia Nina com seus fortes braços, enquanto ela protegia Daniel com seu corpo. Não queriam mais perder um do outro, nem separarem-se. Tinham percorrido um longo caminho até ali, seus destinos finalmente fundiram-se em um só, maior. O calor solar getilmente aquecia os corpos de ambos e o brilho de seus raios levava Daniel a abrir os olhos, preguiçosamente, bom taurino que é. Havia semanas que não mais ingeria bebida alcoólica, mas de certa forma sentia-se entorpecido, ou envolvido por um halo de emoções descoordenadas, cujo resultado perceptível era uma constante Felicidade em ambos. Já Nina, boa pisciana que é, relutava em abrir os olhos, tentando manter o sonho em que via-se, com medo de estar apenas sonhando. Mais cinco minutos nessa posição não lhes faria mal.



O Estranho continuava a olhar o grupo, era início da noite. Resolveu falar, entusiasmado e sorridente, sua voz carregada de um carinho imenso:

-Tem lugar pra mais um?

Os jovens entreolharam-se com certa estranheza, mas sem saberem exatamente por quê, abriram espaço para aquele estranho homem, de estatura mediana e mistérios mil ao seu redor, como era fácil de notar. Ele sentou-se com o grupo e continuou observando-os, feliz. Então que um dos jovens notou que o Estranho os havia feito abrir espaço para Ele, sem notar. Que tremendo poder de manipulação! Quais seriam as intenções desse estranho homem? Alguém com tão visível poder... seria confiável? Silenciosa e discretamente, esse rapaz ficou preocupado com a presença inevitável do Estranho em seu grupo. Eis que o Estranho olhou-o sem mover o rosto e disse ainda nessa postura:

-Deseja dizer alguma coisa, Jefferson?

O grupo ficou ainda com menos palavras à boca, espantados com aquele homem carinhoso, sorridente e calmo.




-Nina... Nina...
-Amor?-ela disse manhosamente, meio que ainda adormecida.

Daniel sorriu, a menina ainda queria ficar dormindo abraçada a seu corpo. O sol podia arder em suas costas, não faria a menor diferença para ela. Havia esperado muito por aqueles momentos, era como em todas as vezes em que sonhara com ele e recusava-se a acordar e perdê-lo, novamente, para a realidade.. Ao redor do casal, deitado sobre a grama, as plantas planejavam dormirem após terem passado toda uma noite alertas vigiando e admirando aquela cena tão bonita. Em Lugar Nenhum as Estrelas são muito mais visíveis e belas que em qualquer outro lugar. É como se elas estivessem mais próximas de nós, como se em um salto pudéssemos tocá-las e trazê-las para nossos lares e corações. Seu brilho varia, é como um contínuo canto, a voz dos Deuses expressa em harmonia, brilho, cor. O sol também parecia mais feliz que antes naquele momento. Era possível perceber a sua felicidade de uma forma indireta, intuitiva, um privilégio daqueles cidadãos tão especiais. Nina abriu os olhos, ainda abraçada a seu amado, sorriu olhando-o fixamente nos olhos. Tirou o feixe de cabelo que lhe obstruía os olhos, para melhor beijar seus lábios, quem sabe assim conseguir expressar parte de sua felicidade. Daniel consentiu, como era de imaginar-se. Foi a primeira vez que ela tomou a iniciativa de lhe demonstrar seu afeto, seu desejo por ele, ativamente; um afeto e desejo tão grandes que o moveram da -agora- muito distante face da Terra, de tudo que ele havia atingido, toda a fortuna, glamour, certeza, tudo que as pessoas ditas comuns almejam tanto. E o seu Amor por ele o havia feito abdicar de tudo aquilo, se a condição era essa para estar com ela, sua amada, ou sequer encontrá-la por um relance que fosse, um segundo que fosse. Valeria uma vida inteira. "O amor que existe em você vale a vida", como ela havia lhe dito uma vez, em seu sonho. Não que ela estivesse falando dele, mas essa frase o havia guiado até ali, por alguma razão mais inteligente e complexa do que eu e meus escritos. Coisas do Destino, coisas do Amor.

-Eu não disse que vocês ficariam juntinhos?

Essa frase interrompeu o beijo dela, que por uma fração de segundo ficou irritada, como era rotineiro. Quem ousara interrompê-la em sua intimidade com seu namorado? Marina é uma garota bem bravinha quando vem ao caso, ou quando lhe convém ser, ou quando acha que deve ser... Respirou fundo para acalmar-se e olhou pra trás. Era Carolzinha! A jovem filha de Fátima estava ali, atrás de ambos, estendendo-lhes uma vermelha e linda flor.

-É pra vocês!

A ingenuidade daquela menininha empunhando a flor fez Nina achar graça de tudo aquilo. Abraçou forte o namorado beijando-lhe o pescoço, que abraçou-a também, ainda na mesma posição, em meio a uma risada, estavam todos muito felizes. Fátima chegou correndo, preocupada com o paradeiro de sua filhinha, não queria que ela incomodasse as visitas, os novos filhos daqueles anciãos com aparência de jovens, moradores de Lugar Nenhum. Ao vê-la fazendo o que justamente não queria que fizesse, ou não desejava, começou a rir. Repreensões não eram possíveis em Lugar Nenhum, dada a atmosfera do Lugar, tão repleta de íons ainda desconhecidos da ciência oficial, cujo efeito astral e fisiológico é o impedimento desses abusos de poder. Somado a isso está o alto grau de desenvolvimento intelectual, emocional e até -por que não?- espiritual daquelas pessoas, o que conspira para que repreensões e imposições não ali existam. Ficou rindo da cena, divertindo-se com aquela imagem, a bem dizer, cômica. Estavam todos muito felizes e começaram a rir de si mesmos, coisa que muito acontecia ali, onde a crítica era inútil. Muito melhor dar risada de si mesmo que ficar a criticar os outros, segundo a filosofia local.

No galpão das Luzes, Lúcio e Gabriela acordavam felizes, após uma noite de intimidades, coisa que não tinham havia tempos.. afinal, o grande dia estava chegando e Lúcio precisaria de todas as suas Luzes prontas para o tal dia, o que tomava-lhe muito de seu tempo. Ontem à noite, havia dispensado seus filhos, que foram divertir-se na feira local, que acontece toda sexta-feira em Lugar Nenhum. Lúcio e Gabriela, após terem disparado os fogos, horas antes, tinham recolhido-se em seu enorme galpão, mais precisamente no centro dele, em meio a velas, Estrelas e confissões. O ato sexual é algo primitivo e de pouca abrangência enquanto forma de expressão de sentimentos para gente tao esclarecida como a daquele Lugar. Não é proibida a prática sexual, mas perto de tantos outros tesouros que só as mentes mais esclarecidas percebem, torna-se ineficaz à comunhão das almas o ato sexual, ali, ainda que em termos de procriação, por assim dizer, ele exista. Almas são entidades tão sutis, tão distantes do grosseiro mundo físico-material... Aliás, segundo a raiz latina da palavra, 'anima', que significa 'movimento', a alma é o que anima, o que move o tal mencionado físico-material. Emoção, 'em moção', 'em movimento', 'alma'. A alma é, para muitos, a raiz da emoção humana e o primeiro traço de humanidade, ao lado da mente, dois entes tão intimamente ligados que torna-se impossível o apontamento de cada um, individual e isoladamente. Assim, na sua esperança de unirem as suas almas, os casais de Lugar Nenhum reuniam-se em momentos especiais para falarem de suas intimidades, seus medos, anseios, seus sonhos... como crianças... comunicavam-se um com o outro sem nenhuma barreira ideológica ou moral e esse evento está muito mais próximo do verdadeiro encontro de almas do que o ato sexual.


No meio do enorme galpão, velas, flores, panos, almofadas... Gabriela estava com muita saudade desse encontro íntimo com seu esposo, com sua alma. Lúcio, apesar de não admitir, também estava com saudades de sua única Amada e de ficar tão intimamente com ela. Nenhum contato físico acontecia nesses encontros, a troca dava-se através da comunicação e a partir de certo ponto do evento os sentimentos e idéias de ambos fundiam-se, como uma magia, segundo a mentalização onde ambos visualizavam simultaneamente seu amor, seus medos, enfim, suas almas como a chama única da vela branca, ou da cor clara que fosse, entre ambos, a única fonte de luz entre ambos, que propunham-se nus, ou seminus ao encontro. Assim que tal fusão dava-se, enquanto a vela permanecesse acesa, era possível permanecerem ligados um ao outro, por esse elo emocional e mental e através dele desfrutarem mais exatamente, ou vislumbrarem mais precisamente o ser andrógino, ou a Alma-Una em que tanto desejam os amantes fundirem-se, um dia.

Agora estavam ambos vestidos e abraçados, Lúcio e Gabriela, já havia horas, à beira do Grande Lago, onde foram ver o sol nascer, pouco depois de a vela de sua comunhão ter apagado... o fogo não é eterno nem nesse Lugar, portanto os períodos de androginia também não. Já haviam banhado-se, ainda nus, naquele Lago, ao final da madrugada, em silêncio. Após uma fusão dessas e após tantas fusões como essa, palavras não eram necessárias para entenderem-se, ou compartilharem seus sentimentos. Conversavam muito pouco um com o outro, mas estavam quase sempre à par do que sentiam, ou pensavam. Lavaram seus corpos naquele majestoso e mágico Lago, após isso puseram-se a secar, naturalmente e em seguida vestiram suas belas e delicadas roupas. Um vento soprou -de propósito- o casal mais importante daquele Lugar, pois eram os dirigentes, ou magno-coordenadores dali, a exemplo de um governador e sua primeira-dama, ou vice-governadora. Gabriela, feminina como só ela sabe ser, valeu-se do frio que sentiu para sentir um pouco de medo, o que forçou seu Amado a abraçá-la, involuntariamente, no intuito de protegê-la de algo que ele notou ela ter sentido, mas sem que ele entendesse muito bem do que tratava-se. Ela fechou os olhos nesse momento, tomada por grande prazer, o prazer de estar sendo abraçada e protegida por quem ela mais Ama e por quem tanto precisou esperar para ter de volta. Seu corpo amoleceu um pouco, como se misturasse-se ao dele, sua cabeça reclinou-se em seu ombro, as mãos unidas em seu ventre, protegia-a. Lúcio então entendeu o truque usado por ela, sagazmente e gostou da idéia. Ficou feliz, novamente. Não tinha muita escolha além dessa, eu acho.

Na cabana do velho Mestre, copos e restos de velas, flores que ofertaram-se ao ritual da fusão de almas, que nitidamente também ali havia sido praticado. Um forte cheiro de perfume era claramente sentido. O velho Mestre estava fora de casa, como ele dizia "conversando com as plantas", ainda molhadas do delicado orvalho que havia nas folhas, caules e troncos; nas pétalas e gramíneas ao redor de sua choupana. Quem diria.... um dos homens tidos como mais espiritualizados do Lugar, navegando em memórias, lembranças... talvez nós tenhamos aqui na face da Terra um visão um pouco equivocada sobre a espiritualidade. O fato é que o Mestre ficava ali sentindo nas palmas de suas mãos o friozinho do orvalho que aquecia-se com a chegada do sol, e lembrando da noite que teve, do sentimento de Felicidade que tomou conta do Lugar desde que Daniel havia chegado; a ansiedade e expectativa que antecederam à sua vinda, o medo sendo vencido pelo Amor, como deve ser. Ele, um dos pivôs dessa situação, pensava em o quanto é solitária sua vida ali na floresta, guardando a entrada da montanha e o quanto de saudades sente de companhia, da sua companheira, que o destino havia colocado não muito perto dali. Era comum vê-lo respirando fundo, o que, os mais íntimos entendiam, era mais para tentar não pensar tanto na solidão que o destino havia reservado-lhe.

Lembrava-se também de mais uma noite de solidão, mesmo em meio à ensurdecedora Felicidade que havia tomado conta do Lugar, desde que Daniel e Nina haviam encontrado-se, pela primeira vez, 'ao acaso', como gostavam de fazer. Lembrava de à sua porta ter batido Fátima, sua sempre companheira, cuja união poucos sabiam. Ela, que dizia ser solitária também, em Verdade não era. Apenas exercia seu papel, pois a cada alma, outra, irmã. Então fazia coisas úteis para as pessoas e sonhava com o dia em que poderia viver com seu Amado, como tanto queria. Tinha enorme fé que esse dia chegaria, em algum momento. Daí seu auto-proclamado nome, Fátima. Ao menos tinha Carol, sua filha e de seu amado, era algo que amenizava seu constante sentimento de solidão. O velho Mestre lembrava-se repetidamente da noite anterior, em que sua intuição pediu para preparar um chá especial, para duas pessoas e ele, como sempre. obedeceu. Nem havia ficado pronto o referido chá, ouviu baterem à sua porta. Era início da madrugada, estranhou uma visita àquela hora. Era Fátima, ofegante, parece que veio correndo até ali. Ele a recebeu com surpresa, com um longo abraço e um longo beijo. Estavam com saudades um do outro, como um jovem casal patrocinado por ambos... os longos cabelos e roupas de Fátima pareciam molhados, talvez por ter corrido com pressa por entre as plantas que cercavam a casa do Mestre, todas banhadas em orvalho. Seus olhos expressavam muito claramente a saudade de seu esposo e a vontade de ficar com ele, mesmo que apenas por algumas horas. Pedia asilo ali, naquela noite.

Carolzinha não era uma criança comum. Entendia perfeitamente esses trâmites e como toda jovem garotinha sonhava com o dia em que encontraria seu Lúcio, ou seu Daniel, guardadas as devidas proporções. Fátima havia saído e deixado-a dormindo, coisa que ela não fez, exatamente como a mãe indicara. Ela sabia da urgência de sua mãe em ver seu pai, da falta que ele fazia e a carência a que o destino remetia ambos. Esperou a mãe sair e levantou, astuta como era, apenas fingira para a mãe estar dormindo. Foi para outra parte de Lugar Nenhum, esperar a madrugada passar, fazendo um pedido às Estrelas, dormindo abaixo delas, no descampado, aguardando, com enorme fé, acordar com uma flor ao seu lado, presente deixado pelas Estrelas às crianças que lhes rendiam pedidos realizáveis. Pela manhã, após uma noite inteira sem fechar os olhos, em meio a chás, velas e confissões com seu esposo, sua alma, Fátima sentiu que talvez Carol estivesse fora de casa... "incomodando as visitas!!". Apressou-se em ir ao seu encontro, despedindo-se de seu amado com um beijo bem longo e intensamente repleto de carinho. Parte do mistério deles está patente?

Sábado, Agosto 27, 2005

Dia 03 - E SE EU DISSER QUE TE AMO TAMBÉM???

Daniel acordou algumas horas após ter adormecido involuntariamente. Estava habituando-se a idéia, de a todo momento ser vencido pelo sono. Notou estar nos braços de Nina, que segurava-o com determinação apesar do sono, que lhe havia contagiado também. Olhou para ela, estava muito Feliz. Quis acordá-la com um beijo. Isso!! Acordá-la com um beijo!! Aproximou seus lábios dos dela, mas teve medo. Também ficou com medo de estragar a cena mais bonita. Hesitou. Resolveu falar-lhe ao ouvido, delicadamente, o vento havia cessado:

-Nina... Nina...
-Oi meu Amor.-ela disse involuntariamente.

Ele riu da cena, silenciosamente, de uma forma carinhosa. Gostou da resposta dela.

-Acorda..
-Não, está tão bom...
-Acorda, “Amor”... –ironizou.

Ela abriu os olhos e o viu fazendo uma careta para ela, afim de assustá-la. Daniel estava mudado. Ela notou isso com presteza:

-Daniel.. você está.. está diferente!!-exclamou com grande alegria. Seu cabelo está lindo!!

E abraçou-o, quase estrangulando-o, tamanha a intensidade do mesmo. Ele divertiu-se com a cena, estava feliz com tudo aquilo. Agora poderia trocar de roupas e esquecer de vez aquela bobajada toda de passado, que diga-se de passagem, o trouxe até ali, em segurança. Eles decidiram voltar para casa, já era tarde. Vieram mais rápido do que foram e voltaram de mãos dadas. Silenciosos, felizes, animados um com o outro e de mãos dadas. Fizeram o mesmo percurso de antes. Notaram que o vento havia soprado do caminho as folhas mortas caídas ao chão, deixando em seu caminho apenas as melhores flores, dentre todas as possíveis ali. Rapidamente chegaram a Lugar Nenhum, já era início da noite. Despediram-se sem muita intensidade. Não quiseram marcar um novo encontro. No caminho para casa, Nina sentiu seu mundo girar dentro de si mesma. Era alegria demais para um dia só, para uma pessoa só! Mal conseguia acreditar que esteve com ele! “Eu vim de tão longe para encontrar alguém; encontrei você”, adormecendo em seguida, em seu colo, sendo recebido pelo abraço mais carinhoso, e intenso possível; essa cena em particular, à margem do Grande Lago, era vista e revista incessantemente. Suas fantasias misturavam-se à realidade e ela foi, sem querer, imaginando o futuro, o que aconteceria em seguida. A alegria rapidamente cedeu lugar ao medo.

Daniel ainda estava confuso, seus sentimentos estavam turbulentos, era muita mistura, de coisas tão fortes. Não queria abandonar Karina, mas sentia que devia. Nina devia ser apenas sua amiga, ele pensava, mas seus sentimentos e razão lhe apontavam o oposto. Estava assustado. Muito assustado e portanto, tenso. Em sua peregrinação noturna na cidade, em busca de algo para jantar, encontrou a pequenina Carol, que o seguiu, esforçando-se em acompanhar seus passos, não sendo notada por ele até que, chegando bem perto:

-Eu não disse que vocês iam ficar juntos?

Ele não esperava a pequenina e nem respondeu a pergunta dela. Continuou andando, preocupado e desconfiado, sem saber o que fazer. Estava muito confuso.

-Você pode jantar com a gente!-ela disse, fazendo-o parar.

Ele aceitou o convite e seguiu a menininha até a sua casa, onde a sua mãe o esperava. Fora recebido por ela com grande entusiasmo, havia um grande jantar pronto e ele, por ter cortado o cabelo, poderia ficar ali, com eles. Ela não tinha um marido, por isso sempre costurava para todos. Dizia que seu marido é muito excêntrico e resolveu ir viver no meio do mato em meio a animais silvestres. Curiosamente ela disse isso num tom de felicidade, ela sente-se feliz por ele, mas não deixa de sentir a sua falta, às vezes. Enquanto comiam, Fátima lhe contava sobre a sociedade do Lugar, como estava estabelecida e, sobretudo, sobre por quê os casais nunca separam-se. Disse que os casais o são não por conveniência, mas porque foram e voltarão a ser, um dia, um ser apenas. Assim, eles unem-se assim como a mente e as emoções unem-se em nosso interior. Portanto, lhes machuca muito viverem isolados, precisam estar a curta distância o tempo todo. Em média 28 metros. Ele indagou-a sobre seu caso e ela revelou-lhe ser uma exceção, que por ser seu marido muito querido de Lúcio, assim como ela, recebeu Dele o direito de ficar a essa distância. “São os ossos do ofício”, ela disse, num suspiro. Eles prestam grandes serviços a todos e para isso acabam por sacrificarem-se em seu enorme de desejo de servirem a todos. Mesmo assim, ela ainda é humana e sente a sua falta, muitas vezes. O rapaz achava tudo aquilo interessante, mas em sua cabeça, o misto de emoções latejava e o transtornava, cada vez mais.

Terminada a conversa, resolveram ir dormir, Daniel aceitou mais por gentileza adquirida na face da Terra que por sono, não conseguia dormir. Sua mente estava confusa demais, seus sentimentos tão turbulentos quanto. Fátima lhe disse que acordariam cedo, pois ela o vestiria e se quisesse, assim que estivesse vestido, poderia conseguir um trabalho em Lugar Nenhum, obviamente não-remunerado, apenas pelo gosto em fazer alguma coisa. Em seu leito, que não era uma cama, mas digamos que funcionava à semelhança de uma, Daniel estava tenso. Pensava em tudo que Fátima, que possuía uma convicção imensa, havia lhe dito, sobre “almas-gêmeas” e tudo mais. Não conseguia deixar de pensar nele e em Marina como um desses casos, mas o fantasma de Karina ainda assombrava-o. O passado recusava-se a desistir dele e ele hesitava em fazê-lo sumir. Era um embate grande. Ele estava confuso. Não conseguia articular com presteza as idéias, e em seus sentimentos, um nome emergia com uma força enorme “Marina, Marina, Marina”. Queria dormir, mas não conseguia, queria se deixar levar por Marina, mas não era capaz; não sabia se seria certo, se ela seria mesmo a pessoa certa para ele. Existiria uma pessoa certa?

Estava transtornado demais, eram sentimentos fortes demais, misturados demais, uma combinação nada proveitosa para quem deseja ficar em paz. Forçava-se a acreditar que era tudo coincidência, que encontraria uma Karina, que Marina não era nada além de sua amiga. Afinal, nunca tinha amado alguém dessa maneira antes, havia desejado sexualmente algumas mulheres, mas nunca havia se entregado a elas. Julgava o Amor ser algo derivado das paixões que conheceu, como algo que ele conhecesse. Isso era novo demais para ele dizer se conhecia, ou não. Não a desejava sexualmente e isso o deixava inquieto. Como gostar tanto de alguém, querer beijá-la, mas não desejá-la sexualmente? E o fantasma da Karina ainda rondando-o, assim como tudo aquilo que ela representava e trazia consigo. Ele estava confuso, muito confuso.

Na casa de Lúcio não era diferente. Nina estava agitadíssima, como nunca esteve. Gabriela notou isso de imediato, enquanto Lúcio preferiu fingir nada saber a respeito. Ela tentou conversar com Nina a respeito de seu medo, mas esta apenas ficava tremendo, chorava, ficava ansiosa, falava atropeladamente, desesperava-se, fechava-se e abria-se em choros. Estava apavorada. Gabriela entendia o por quê e apenas resumiu-se a consolá-la, como as mães costumam fazer. Neste dia dormiu com ela, para que ela ficasse segura. É uma mãe e tanto.

Um novo dia surge em Lugar Nenhum e as pessoas, gradualmente entregam-se aos seus hábitos diários. Daniel inaugura seu primeiro ofício por lá: carteiro! Vestido a caráter e muito feliz, orgulhoso da sua profissão, trata de correr as casas para saber quem desejaria enviar correspondência aos demais. Ao passar perto de uma esquina, sentiu um calafrio: Nina estaria ali perto? Desviou por outro caminho. Não quer encontrá-la. De casa em casa, levando as correspondências, acaba chegando a um amplo galpão, onde um certo Lúcio possui uma carta a ser entregue a um rapaz que atende por “Mestre”. Daniel achou familiar aquele rosto, os cabelos cacheados ruivos e a pele clara, mas o remetente, entretido em seus ofícios diários acabou por não poder dar-lhe muita atenção. Daniel estranhou, mas feliz em sua mais nova forma de evitar pensar em Marina, resolveu ir achar o tal “Mestre”.

Nina estava tensa. Luís notou isso e tentou aproximar-se dela para conversarem. Ela negou, disse que estava tudo bem, que era apenas maluquice da cabeça dela. Ele entendeu que era nada disso e forçou um pouco mais. Ela irritou-se, inventou uma história, não o convenceu, ironizando-a. Não queria falar a respeito, também. Tudo que remetia a Daniel lhe causava medo. Resolveu ir para a janela, olhar a paisagem, vendo em algum lugar da cidade um certo Daniel carregando uma carta em mãos. Sentiu-se paralisada, sua feição tornou-se séria imediatamente, sua pressão caiu por um instante, a respiração ficou suspensa por dois segundos, depois voltou ao normal, recuperando-se. Luís, vendo aquela cena, entendeu tudo e riu sagaz, mas discretamente como quem desvenda uma charada. Ela notou o que estava fazendo e virou-se para trás, tentando manter a pose de mulher furiosa, deparando-se com Luís à sua frente, ainda rindo. Ela perguntou-lhe do que tratava-se aquele riso, tentando ser brava e ele, divertindo-se com a cena, disse “nada.. nada..”, voltando à sua mesa e deixando Marina na dela, onde uma sucessão de D’s e corações em forma de D’s tomou o lugar das outras formas geométricas que ela costumava desenhar, rotineiramente.

Era misteriosa a morada daquele jovem rapaz, que atendia por “Mestre”. Ficava em meio a árvores complicadas, no meio de um bosque. Mas lá ele estava, na porta de sua casa e ao ver seu já conhecido Daniel, causa-lhe grande espanto:

-Mas você é....
-Vamos entrar, Daniel?-ele convidou.
-Mas você é..-espantadíssimo, “queixo caído”, diriam os populares.
-Vem!!

Ele entrou e Daniel não tardou a entrar. O jovem velho feiticeiro pediu que o forasteiro sentasse-se no interior da casa, enquanto ele iria pegar um chá. Trouxe duas xícaras, ficando com uma e cedendo a outra ao já-conhecido amigo. Daniel não conseguia acreditar que aquele rapaz era o mesmo que havia lhe tomado o desenho de sua amada, naquele prédio estranho... O jovem Mestre irrompeu o silêncio e os dois conversavam, enquanto tomavam chá. O espanto de Daniel foi reduzindo-se, à medida em que iam conversando, sobre os assuntos mais variados, todos de grande profundidade, não era sem razão ser ele chamado “Mestre”. Bebeu todo o chá sem notar, em meio a revelações as mais diversas cobre a natureza e o homem, oferecidas pelo jovem Mestre. Sentiu vontade de ir embora e alegando “ossos do ofício”, foi embora da casinha do feiticeiro. Este despediu-se dele acenando. Em sua casa, Fátima parou o serviço por um minuto. Sentiu uma coisa boa no ar... voltou a trabalhar, mais feliz.

Dois dias depois, já era sexta feira, dia da feira semanal de Lugar Nenhum. Em sua mútua fuga e negação do outro, Daniel e Nina acabaram por cruzarem-se, brevemente, “por acaso”, como gostavam de fazer. Cumprimentaram-se de uma forma interessante: era para ser um ‘oi’, que se transformou num longo abraço. Ela então entrelaçou os dedos de suas duas mãos aos das duas mãos dele e ficou segurando à altura do queixo, após terem abraçado-se. Os transeuntes riam daquela forma –já manjada-: discretos e felizes. “Tsc tsc tsc” era notado no sorriso de cada um deles, como se dissessem “quem eles pretendem enganar fugindo um do outro?”. Era um teatro divertido e imprevisível aos habitantes daquele mundo perfeito, ou bem perto disso. Combinaram de irem juntos à feira semanal, Daniel nunca tinha ido a tal evento e estava curioso. Ficou feliz ao saber que haveria música ao vivo e maçã-do-amor, um de seus doces favoritos. Ela sorria da felicidade dele, estava obvia e explicitamente apaixonada por ele. E ele por ela. Só não aceitavam isso, ainda. Despediram-se e em seguida questionaram-se “meu Deus, que eu fiz??”, mas o receio de encontrar o outro era tão grande, não tiveram coragem de desmarcar o encontro que, segundo seu raciocínio, nasceu de “um momento de loucura em meio a dois dias da mais completa racionalidade ou serenidade.” (me engana que eu gosto)

Era dia do encontro e os sentimentos de Daniel haviam mudado. Desde que saíra da cabana do Mestre, estava sentindo-se diferente. Julgou ser efeito do chá, mas já fazia dois dias que o havia ingerido. Sua visão sobre Marina mudou completamente e ele agora, meio que por milagre (“maldito Mestre!!!”, ele ironizava a todo momento), desejava Marina com todas as suas forças. Queria encontrá-la, queria estar com ela. Pouco importava se era Karina, Marina, Nina ou o que fosse. Era ela e somente ela que ele queria. O resto não tinha mais importância. Estava animado com o encontro, não sabia o que dizer, o que fazer. Como dizer para ela que a Ama tão intensamente? Isso seria difícil. Aprontava-se na casa de Fátima (que o acolheu), enquanto pensava nisso.

Na casa de Lúcio, Nina tremia, suava frio, não tinha mais o medo para se proteger atrás dele. Agora precisaria enfrentar a força de seus desejos. Ela o havia trazido até ali; o havia esperado, guardado-se para ele, cuidado de si para entregar-se de corpo e alma a ele, da forma mais intensa possível. E justamente essa inexperiência pesava sobre suas costas. Não sabia o que fazer, como agir, nunca tinha se deixado levar por ninguém. “E se ele me beijar?? O que eu faço?” ela se perguntava, entre tremores, quedas súbitas de pressão, calafrios e uma ansiedade devoradora. Respirou fundo e saiu de casa de uma vez, com decisão, os dados foram lançados.

Encontraram-se num jardim meio escuro conhecido de Nina, ele chegando um pouco depois dela. Ela estava linda e paralisada ao vê-lo aproximar-se, sem testemunhas ao redor. Ela sempre usava saia, usualmente as mais curtas, mas nada exagerado. Era apenas ele e ela. Em suas cabeças, orações as mais diversas, para apartar a ansiedade que lhes tomava. Ele chegou mais perto, tenso pois em sua mente havia um branco sem precedente, lhe impedindo de planejar alguma coisa. Ao chegar ainda mais perto, notou que ela tremia. Entendeu tudo. Ela o olhava fixamente, imóvel, estava fria, pálida, assustada, tremia levemente. Ele fez que ia parar em sua frente, levou seus lábios aos seus ouvidos e disse, cantando sua canção inédita, nascida naquele quarto de hotel, algumas semanas antes:

“Se eu confiar em você...”-silêncio com os lábios em seu ouvido, o corpo a meio palmo de distância do dela, as mãos pra trás, as dela fechadas com força ao lado do corpo.

“E me deixar levar, agora..”-ficando rosto a rosto.
“Se eu acreditar em você”- indo para a outra orelha
“E que vai cuidar de mim”- levando o corpo junto
“Se eu precisar de você”- ela imóvel, ele lentamente passando pelo seu ombro, andando sensual e lentamente
“Quem vai estar comigo?” – falando à altura de sua nuca
“E quando o tempo parar, as horas”- girando-a pelo braço, ficando face a face
“Pararem de contar” – lentamente girando-a de volta
“Quando tudo acabar” – abrindo as duas mãos dela, pelas costas, entrelaçando os dedos
“Você me leva, pra casa, meu Bem?” – cantando baixinho em seu ouvido, as mãos dadas
“Se eu confiar em você..” – indo para a frente dela, cerca de um metro
“Você” – apontando pra ela
“Diz que me ama” –movendo-se à frente dela, um metro e meio
“E se tudo acabar, dissemos tantas coisas” – olhando para as estrelas
“Se eu me entregar para”
“Você” –apontando para ela e olhando fixamente os olhos dela
“Jura que me espera?” –sorrindo pra ela
“Te quero tanto”- parado e sorrindo para ela, transmitindo enorme confiança
“Fica comigo??” – aproximando-se bruscamente dela
“Pra sempre??” – tentou falar isso ao ouvido dela

Mas como era de imaginar-se a pisciana Marina não resistiu aos encantos de seu Príncipe Encantado, ou melhor, Encantador. Ela avançou sobre ele, antes de terminar a última frase, beijando-o com toda a intensidade de que era capaz. Ele notou que ela beijava mal, típico de alguém inexperiente como ela. Ele não poderia acolher melhor notícia que esta, inexperiente que era, talvez, um ou dois dias mais hábil nisso do que ela. Era dele, sempre foi e sempre será. A sua beleza nunca foi um atrativo para os demais, era para ele e apenas para ele. O mesmo pode ser dito dele. Ele era dela porque ela queria ser dele. Desejos que geram realidades. “Querer alguém é guardar para si essa pessoa, a menos que ela não seja para a gente”, dizia o Sábio Mestre, para Nina, tempos atrás. Ficaram beijando-se por horas a fio, de tantas formas diferentes, ali, naquele jardim. Não importava se sabiam ou não beijarem-se, estavam inventando seu próprio meio, o que era particularmente lindo aos olhos de ambos, creio que igualmente aos da maioria das pessoas; descobrindo juntos, construindo e objetivando juntos o seu Amor, passo a passo, beijo a beijo. A inexperiência de ambos era um trunfo à relação, visto que não levaria adiante manias de terceiros, sendo tudo descoberto e vivido pelos dois, para os dois. Valeu a espera, dos dois lados. Estavam com saudades um do outro, realmente. Muitas saudades. Muitas mesmo, posso garantir. Só não posso detalhar mais para não entrar demais na intimidade do casal.

* * * * * * * * * * * * * * *

Fogos erguiam-se ao céu escuro de Lugar Nenhum, colorindo por flashes o novo casal, que insistia em beijar-se com tamanha intensidade de forma a desafiar a inexperiência de ambos. Isso não importava, aliás, excitava enormemente os dois, ensinarem e aprenderem tudo juntos, ao mesmo tempo, estavam aprendendo como exteriorizar seu carinho e desejo pelo outro fisicamente, excêntricos que eram, da melhor maneira possível, sem manias adquiridas com outras pessoas, nem tão exóticas quanto eles. Era importante terem, enfim, encontrado-se, como devia ser. As luzes no céu misturavam-se às constantes, porém mais delgadas das Estrelas, que bailavam agitadas, enfim contaminadas pela doçura, pureza e intensidade daquele jovem casal, que se amava tanto, desde antes de entenderem o que o Amor era, ou quem eram. Todas Elas queriam assistir aquela cena bonita, de camarote e espremiam-se acima do casal. Era como se uma música tocasse por todos os lugares, originada naquele momento, naquele jardim escuro, tão propício à primeira realização de um Amor tão bem guardado, a ponto de parecer escondido, errado; mas que em seu devido tempo revelou-se o mais certo, dentre todos os possíveis. A esperança tomava conta de tudo, fazendo, do outro lado do mundo, o Sol rir em seu Céu, Feliz, desfilando seu calor com mais certeza, com mais intensidade, na certeza de que vai chegar o outro dia, que sua órbita será completada a tempo e força suficientes para mais outra e outra e outra.... infinitamente.

Perto dali, na tradicional feira de Lugar Nenhum, uma apreensiva Gabriela preocupava-se com Lúcio:

-Lúcio, você tem certeza de que é hora de fogos? Isso pode ser perigoso... –ela é muito preocupada com ele.
-Relaxa, mulher...-ele disse carinhosamente- é por uma boa causa...- disse um Feliz e relaxado Lúcio.

Deuses, Deuses, quem os entende? Não é Verdade?




Terça-feira, Agosto 23, 2005

Um minuto pra daqui a pouco...

Pouco a pouco a cidade foi sendo tomada pelo carinho mútuo daqueles dois jovens forasteiros. Apenas quem não abalava-se, notadamente, era Lúcio, mas este, mantendo sua boa pose de durão (mas muito carinhoso, a pose era mais para divertir que qualquer outra coisa), relutava em fazer notar seu entusiasmo por aquele casal, aquele lindo casal. Já Gabriela, a linda esposa de Lúcio, estava completamente entorpecida por aquele clima de romance, de amizade, de afeto, de tudo. Era tão puro... não havia atração sexualizada, ou paixão. Era apenas afeto, num nível difícil de compreender. Em níveis que um amor apaixonado, ou pervertido pelo sexo jamais pode alcançar. Era Amor e Gabriela não conseguia esconder o efeito desse sentimento em si. Ela, cada vez mais carinhosa com Lúcio, respeitava sua pose de homem durão mas em seu íntimo desejava que ele também rendesse-se a esse carinho todo, que estava “no ar”. Ela ficava por horas olhando-o consertar aparelhos de iluminação, criar designs novos de luz e orientar seus filhos, que ao invés da agitação de sempre estavam calmos, serenos, tomados pelo efeito da luz que brotava cada vez que o “acaso” fazia Daniel e Nina encontrarem-se. Passavam mais temposjuntos por encontrarem-se “ao acaso” do que passariam se o combinassem!! A todo momento encontravam-se, sempre “por acaso”, sem combinarem nada. Gabriela entendia tudo, como Lúcio e ficava vigiando-o, tão carinhosa, totalmente entorpecida por aquele clima bonito de Amor entre os jovens forasteiros, Amor Puro, Intenso e Integral. Ficava sonhando em seu cantinho, mentalizando, desejando fortemente que Lúcio também entregasse-se a este sentimento, que havia tomado-o também. Ela, sem dúvida alguma a mais sensível de todas as mulheres da cidade, entendia que Ele, como Dirigente da Humanidade, ou pelo menos da humanidade da cidade, a bem dizer, não poderia render-se a estes sentimentos, por maior que fosse sua vontade, mas ela, como esposa, fazia seu papel, tentando de longe seduzir seu esposo, para que abrisse mão de seu mundo para ir realizar seus caprichos afetivos. Mulheres, mulheres...

Em um de seus encontros “ao acaso” com Daniel, Nina teve uma idéia: convidá-lo para ir com ela até o Grande Lago! Este ficava à margem de uma das faces da enorme montanha que cercava Lugar Nenhum. Ela animou-se enormemente com a idéia de levá-lo até o Lago. Não sabia por quê desejava isso, apenas desejava.. e como desejava!! Daniel, entorpecido pelos sentimentos nutridos por ela, concordou de imediato, ainda vestindo suas frágeis e pesadas roupas escuras, comparadas às claras e leves, multicoloridas dos moradores de Lugar Nenhum. Seu gosto por novidades, sua intensa curiosidade, somada à sua natural prudência fizeram com que ele desejasse, também, conhecer o tal Lago! Seria perfeito. Não questionaram-se a respeito disso, tamanho era seu entusiasmo um com o outro. De alguma maneira misteriosa ficaram completamente encantados pela idéia de irem juntos, ao Lago. Combinaram para o dia seguinte, pois já era noite quando decidiram o passeio. Dormiram felizes, Nina na casa de Lúcio, onde morava e Daniel em algum quintal (as roupas dele impediam que ele dormisse dentro das casas).

Chegara o Grande Dia.

Acordaram felizes, como a maioria dos habitantes de Lugar Nenhum, que são sempre Felizes, mas o gigantesco entusiasmo de Marina por Daniel e vice-versa fez com que além da Felicidade usual houvesse um acréscimo em entusiasmo, no emocional de todos. Estes, Sábios que são, também notaram que o Grande Dia havia chegado, enfim. Mais uma vez, apenas o casal-chave do entusiasmo geral não entendeu a dimensão de seus sentimentos e a enorme influência deles na vida de todos. Estavam apenas felizes e animados com o passeio. Encontraram-se em uma rua qualquer de Lugar Nenhum, abraçando-se por minutos a fio, como dois amantes fiéis e puros, repletos de saudades um do outro. Depois seguiram em silêncio, sorrindo, através da cidade, deixando-a. Passaram por um bosque assim que deixaram o descampado que sucedia aquela parte da cidade. Entreolhavam-se felizes e em silêncio, sentindo que estavam indo em direção a um encontro que mudaria suas vidas e as de todos. Era um clima de aventura, como as da infância. Seguiam com segurança, sem pressa, aproveitando cada gole de ar, cada brilho no olhar do outro, cada pequeno raio de felicidade emanado daquela parceria tão única, tão especial, tão intensa. Viram aves voando aos pares, animais procurando suas tocas. Flores pares, árvores gêmeas e irmãs. Rochas que pareciam completar-se, cores espetaculares a dançarem, aos pares, umas com as outras. Tudo combinava e conspirava a favor do casal, que abrilhantava ainda mais aquele lindo dia.

As folhas secas no chão eram pisadas e partiam-se em duas, quase sempre. As árvores pareciam querer ser notadas aos pares, assim como os animais, que exibiam suas parceiras com orgulho; os que estavam sozinhos escondiam-se, não era o momento de mancharem o grande dia do casal. Seus sentimentos de Amor devotado um pelo outro tomava-lhes por completo a mente e as emoções. Pararam para comer uma fruta apenas, caída de uma árvore de propósito como oferenda ao ilustre casal. Morderam juntos a fruta, que parecia uma maçã vermelha, para serem justos um com o outro, numa brincadeira quase infantil. Seus rostos ficaram tão próximos um do outro que a brincadeira ficou séria, ficaram os dois muito sérios, silêncio!!!

Tudo parou.

Os dois, com os dentes fincados na mesma maçã, seus rostos a poucos centímetros um do outro, uma atração silenciosa, mais forte que a alegria se fez notar. Sentiram a mesma coisa. Paralisia. Olharam dentro dos olhos do outro, eram verdes os dela e castanhos os dele. Silêncio. Sua respiração parou ao mesmo tempo por alguns instantes, enquanto permanecia o silêncio. Silêncio.

Nem uma folha ousou cair, um animal se mover. Queriam ver a decisão do casal, ansiosos pelo que já sabiam iria acontecer, exceto o casal, que descobria isso naquele momento.

Por um instante, Karina sumiu de sua mente, nem lhe ocorreu um dia te-la visto em sonho. Em seu interior, Marina, Nina, à sua frente, pela primeira vez. Ela era real, a atração era real, o desejo real. Dentro dela, um nome. O Príncipe que ela via sempre com roupas bonitas e um cabelo lindo foi subitamente varrido por aquele rapaz que ela não reconhecia de seu passado. Ela sentiu-se atraída por ele; ele por ela. De uma maneira nunca antes sentida, pelos dois. O silêncio excessivo, sem uma ação definitiva permitiu que ares de constrangimento tomassem conta da situação, as coisas ao redor começaram a mover-se novamente. Nina, medrosa como era, mordeu a maçã com uma bocada ainda maior, quase tocando os lábios de Daniel, tirando-a de sua boca, fazendo uma brincadeira. As folhas acabaram de cair, os animais a andar, o som das águas do pequenino córrego que conduzia ao Lago fizeram-se ouvir novamente. Nina riu, disfarçando uma brincadeira. “Ganhei de você!! Fui mais rápida!!”. Brincadeira nada, ela queria beijá-lo. Queria MESMOOOOO(usando palavras de seu vocabulário exagerado). Mas teve medo.

Já ele, quis também entrar no clima de descontração de Marina. Tentou convencer-se de que por um instante não quis trair Karina, sua amada Karina. Mas já era tarde, em seu íntimo, a traição já havia acontecido. Ele brincava, mas parecia estar tenso em sua diversão. Ela também estava, mas fingia estar brincando. Os animais pararam de esconder-se e as árvores ofereciam novamente contagens ímpares. Mas as flores, curiosamente, insistiam em ofertar sua beleza aos pares. Seguiram por mais alguns minutos, nesse clima tenso de diversão, haviam trocado o acaso pela certeza, por eles mesmos. Sem perceber haviam tirado das mãos do acaso o curso natural de sua relação, por terem recusado-se a beijarem-se, “ao acaso”. Agora caberia a eles decidir essa situação. Chegaram ao Lago.

Um Majestoso Lago, diga-se de passagem! Nunca Daniel estivera em um lugar tão bonito. Sua tensão dissipou-se ao chegar ali, assim como a dela. Ele tomou a iniciativa de ir à frente dela, que ficou de longe olhando-o chegar bem perto da margem do Lago, olhando seu reflexo no espelho d’água, que de tão serenas, permitiam um reflexo completo de sua imagem. Eram águas claras e em certos pontos do Lago era possível ver os peixes nadando, algas sendo levadas gentilmente pela leve correnteza, o formato das pedras do fundo das áreas mais rasas. Nina estava Feliz, sentia-se completa ao ficar admirando seu “Lúcio”, como certa uma “mãe” Gabriela lhe havia ensinado tão bem, através de seus incontáveis exemplos de Devoção e Amor. A Verdadeira Entrega é a da Devoção, Nina entendeu bem essa valiosa lição. Quem domina, submete-se; quem adora, ou devota, Entrega-se e governa, Rainha que é, mesmo sem saber. Nina aproximou-se de Daniel, levando-o pelo braço, delicadamente, repleta do mais intenso e envolvente Amor. O constrangimento de alguns minutos atrás havia desaparecido após um curto período de enorme tensão entre os dois, que tentaram disfarçá-la da maneira que a situação melhor permitiu. Constrangidos ou não, estavam ali, no Lago, juntos. A atmosfera do lugar, o clima, a paisagem... tudo conspirava para abandonarem aquele clima tenso de outrora, o medo dele de deixar para trás quem ele estava gradualmente deixando de ser, o dela de assumir quem sempre foi.

Nina guiou-o pelo braço, como era lindo seu corpo, ele pensou. Seus longos cabelos, avermelhados, sua alva pele, seus ombros, quadris, pernas, ele gostava de tudo nela. Essa garota havia tomado-lhe por completo. Ela guiou-o até uma árvore muito bonita, a mais bela dentre todas, que ficava em uma das margens do Lago, solitária em meio à grama, enchendo toda aquela pastagem com sua Beleza e Imponência. Ela sentou-se, encostando na árvore. Pediu que ele sentasse também, ele sentou ao seu lado, com receio de gerar mais constrangimentos. Não olhavam-se, ambos apenas olhavam para o Lago, para o horizonte. Um longo silêncio tomou conta do lugar em que estavam. Daniel quebrou o silêncio, sem mudar a postura.

-Sabe por que eu vim parar aqui?
-Não..- ela disse, movendo o olhar para ele, curiosa e cuidadosamente, sem mexer a cabeça.
-Eu vim por causa do amor, por causa de alguém.

Ela ficou séria, a respiração parou por um instante novamente.

-Você tem alguém, Nina?
-Não..-ela disse, querendo dizer “você”, desejo este que lhe confundiu, mesmo assim continuou a ouvir a história do amigo.
-Eu poderia ter tido qualquer mulher de onde eu vim. Mas não tive nenhuma. Sabe por que?

Ela virou seu rosto para ele, séria e ansiosa pela resposta, que foi a seguinte:

-Porque estaria traindo o que havia de melhor em mim.

Ela continuou curiosa. Ele prosseguiu, ainda olhando para o horizonte:

-Alguma coisa em mim sempre me disse que ela existia. Seu nome é Karina. Eu fui atrás dela em toda a parte e jamais a encontrei. Tantos sonhos, tantos planos, tudo que eu fiz e sou, por causa dela; e nunca a conheci...

A cada palavra, Marina via-se mais e mais na posição de Karina, era ela quem ele buscou tanto tempo e nunca uma Karina hipotética de sonhos desordenados. Era ele? Seria ele mesmo seu Príncipe? Teria ele um nome, Daniel? Nina continuava séria, ouvindo a história desordenada de Daniel, sem prestar atenção aos fatos, estava muito confusa em seus sentimentos por ele. Este falava sobre seu amigo Bravo, sobre a banda, “Karina Quer Casar”, sobre as músicas, sobre um dia em que ele foi até a casa do amigo em busca de alguém. Porque ele sentia que aquele alguém era ela; mas ela não estava mais lá. Nina o interrompeu neste instante:

-Deixa eu cortar seu cabelo???

Ele virou-se do horizonte e percebeu que ela estava olhando-o, muito animada, apesar de tensa, como quem quer dissipar a tensão num gesto inesperado. Seu olhar implorava, sorrindo, que ele respondesse afirmativamente. Ele olhou-a por um instante e concordou.

-Êbaaaaaa!! –ela disse, enquanto sorria largamente, empolgadíssima e aplaudia a si mesma, de uma forma lacônica.
-Mas como você vai fazer isso?-ele questionou.
-Senta aqui..-indicando seu colo.

Ela abriu as pernas e recebeu-o, de costas para ela. Seu tórax e abdome ficaram em contato com as costas do rapaz, que dedicava-se moderadamente a exercícios de musculação. Ela pegou, agitada, a tesoura que trazia na sacola que pediu para ele carregar, quando saíram de Lugar Nenhum. Ele, ainda envolvido pelo passado de ‘Karinas’, pensando em que ponto da sua história parou, ao ser interrompido por ela, sentiu-se muito mais relaxado tendo este contato completo com Nina. Ainda estava um pouco tenso, mas bem menos do que antes. Estar no colo dela estava lhe fazendo muito bem, por sinal. Ela tomou a tesoura em mãos, ainda estava agitada, um pouco nervosa e ansiosa pela mistura de sentimentos. Fechou os olhos, respirou fundo, abriu os olhos enquanto expirava, e começou a cortar os “dread-locks” dele, um por um, que iam caindo na grama. Ele voltou a falar de seu passado, mas de uma forma mais dispersa, mais relaxada, ela ouviu menos ainda. Não queria ouvir aquilo pois estava entretida cortando aqueles feiosos “dreads”. Uma leve brisa começou a soprar seus cabelos para longe deles, em direção ao lago.

Os cabelos dela agitavam-se com o vento, muito delicado mas decidido, indo para frente como se completassem os que faltavam na cabeça de seu Amado, que gradualmente foi ficando sonolento. As palavras foram ficando confusas e ele foi gentilmente adormecendo nos braços dela. Ele nunca havia sentido-se tão seguro, confortável, ou desejado daquela maneira. Era um sono quase infantil, como um filho que dorme ao amamentar no seio da mãe carinhosa. Era um retorno a alguma coisa, isso era certo, mas não sabiam exatamente a quê. Ela terminou de cortar os cabelos dele, deixando a parte anelada em detrimento dos “dreads” ausentes. Ele entregou-se por completo a ela, encostando sua cabeça em seu pescoço, ainda de costas para ela, adormecido de uma forma leve, Feliz. Era um sono de Felicidade. Ela pôde então observar suas feições sem aquele feio disfarce “rasta”. Era ele!! Era aquele de seus sonhos!! E estava em seus braços!! Quis beijar seus lábios mas sentiu que isso talvez viesse a estragar a doçura da cena. O vento apertou seu passo um pouco, trazendo leve frio, os cabelos dela seguiam seu ritmo. Beijou sua cabeça então, por três vezes, carinhosa e longamente, sem pressa alguma. Em seguida abraçou-o bem firme e carinhosamente, sendo instintivamente retribuída por ele. Eram um casal, enfim, em meio a folhas mortas e fios de cabelo entregues ao vento... adormeceu em meio ao carinho do momento. Afinal ela também estava muito segura, muito mais do que poderia imaginar.